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Especial: Maio de 1968 revisitado: as manifestações na França

maio 6, 2008

Maio de 68Estamos entrando no mês de maio, e com ele, chegam algumas efemérides importantes: estamos falando de quarenta anos de uma das maiores revoluções já ocorridas na Europa no século passado, que teve maior expressividade na França e que estendeu seu legado a todo o mundo. Parafraseando Zuenir Ventura, em seu livro “1968 – o ano que não terminou”, nenhum ano dentro do século XX foi mais discutido que 1968.

O principal catalisador dessa revolução foi a juventude, que clamava por voz ativa, direitos iguais entre sexos, raças, e protestava contra a desigualdade econômica. Os jovens de 68 viviam em um contexto pós-segunda Guerra Mundial, que gerou uma explosão demográfica, beneficiada com o contexto de prosperidade capitalista em países ricos. Nunca houveram tantos jovens em condições de cursar uma Universidade. Paralelamente, o poder da televisão como meio de comunicação agia como catalisador das mudanças sociais, interligando diferentes realidades. Um bom exemplo foi o descontentamento da população norte-americana com a Guerra do Vietnã. A mídia mostrava a juventude norte-americana morrendo por uma Guerra sem razão.

Mas voltemos a maio de 68 na França. O governante era o ditador Charles de Gaulle, que era questionado pela intervenção francesa na Argélia. Não demorou muito para o movimento estudantil – liderado por Daniel Cohen Bendit, mais conhecido como “o vermelho” (graças ao seu cabelo ruivo, e não por uma simpatia com o comunismo, como alguns pensam) entrar em atrito com o ditador. Paralelamente, os trabalhadores também estavam descontentes com sua remuneração, e aliaram-se ao movimento estudantil, com a grande greve instaurada a partir do dia 18 de maio.

O movimento então tomou uma dimensão estrondosa: a Quartier Latin, uma das principais ruas da França, estava tomada por barricadas. Os estudantes entricheiravam-se nessas barricadas para jogar bombas. A polícia reprimia o movimento com bombas de gás lacrimogênio. De Gaulle chegou a se refugiar em uma base militar na Alemanha. Após convocar eleições legislativas e oferecer um aumento de 35% aos trabalhadores, retomou o controle. A ala trabalhadora retirou-se da revolução e o movimento estudantil perdeu a força, com Daniel Cohen sendo convidado a retirar-se do país. Ele só pôde voltar ao país dez anos depois.

Porém, mais do que uma revolta política e estudantil, maio de 68 representou uma revolução cultural.  Nunca, até aquele momento, as pessoas se expressavam tanto, tomando a palavra e lutando contra os movimentos repressores e autoritários. Movimentos de liberação sexual, igualdade de condição para mulheres e homens eram impulsionados com a instabilidade política.

                                No que toca à cultura, muitos historiadores comentam que os prenúncios da revolução de contracultura de 68 teve origens no movimento cineclubista francês.No mês de fevereiro de 68, O ministro da cultura francês André Malraux resolveu despedir Henri Langlois (um dos mentores da Nouvelle Vague) da presidência da Cinemateca Francesa, alegando problemas de gestão. Esse fato gerou verdadeira revolta, e jornais como o francês Combat e a revista Cahies du Cinemá lideravam as vozes de insatisfação. Vários cineastas como Francois Truffaut, Alain Resnais, Robert Rosselini apoiaram os protestos. Uma manifestação ocorrida no Palácio de Chaillot, sede da Cinemateca, com a qual contava com grandes figuras do cinema como Truffaut, Godard, Kurosawa e Fellini é reprimida com bombas. Porém, o ministro francês cede às pressões e Langlois não chega a ser demitido.
Esse fato é um dos estopins da revolução pelo fato da juventude descobrir que a sua mobilização poderia mudar os rumos da história.

E hoje?

40 anos depois, um pouco antes de ser eleito presidente, Nicolas Sarkozy disse que era preciso “enterrar 1968”. Para ele, o efeito de rebeldia faria mal à organização geral do país. Paralelamente, o líder Daniel Cohen lança seu livro “Forget 68”. Atualmente, Daniel é deputado pelo partido Verde de seu país de origem, a Alemanha.
O Festival de Cannes deste ano dedica-se a relembrar os acontecimentos de maio de 68 na França. É esperar pra ver.
*Para saber mais

Livros
Zuenir Ventura – 1968, o ano que não acabou

Sites interessantes
Especial da Folha

Filmes
Os sonhadores – Bernardo Bertolucci
Amantes Constanes – Philip Garrel