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Orkutiqueta

agosto 13, 2008

Em uma dessas noites de pseudo-inverno portoalegrense, lá estava eu, como de costume, indo para meu trabalho. Meu apartamento fica bem próximo ao jornal, o que facilita bastante  a minha rotina, que inclui uma caminhada leve, de três quadras, e pegar um ônibus (a maravilha da linha T1-D) que acaba resultando em quatro paradas apenas. O curto trajeto ajuda a diminuir o já caracterítico mau-humor de entrar no trabalho as oito horas da noite – o horário do happy hour, quando meus amigos e família estão chegando em casa.

Lamentações à parte, estava indo para o jornal essa semana, e entrei no onibus. Quase sempre é vazio, o que me permite sentar perto da janela e me perder nos pensamentos e imaginar como será minha rotina do dia (noite?). Estava imersa em meus pensamentos quando notei que estava sentada diante de um casal que discutia. A menina, muito bonita e bem arrumada, contava uma história para o rapaz que envolvia o orkut, o tão famigerado site de relacionamentos.

Pronto, nem que eu não quisesse escutar, lá estava eu imersa na história do casal do banco de trás do ônibus. A garota estava visivelmente irritada por conta de um recado de outra na página de recados do moço. Alternava termos como “aquela biscate”, “é vagabunda mesmo” e , como o belo clichê esperado, completou a história com um “isso não vai ficar assim, ela não perde por esperar”. Bem, mulheres podem ser bastante perigosas quando irritadas, e eu estava ali diante de uma promessa de vingança! Para quê novela das oito, não é amigos, quando a vida real pode ser muito mais divertida!
Já tentando dissimular o sorrisinho no cantinho da boca, estava la eu escutando – e porque não dizer, esperando o que o rapaz iria responder sobre aquela história toda. Ele deixou ela falar bastante, e completou dizendo “a guria é uma idiota, não esquenta com isso.” Ok, comportamento tipicamente masculino, tentando encerrar a discussão, notadamente irritado pelo que ele considerava uma “tempestade no copo de água” protagonizado pela sua “partner”.

Nesse momento eu já estava torcendo para a menina se acalmar, porque essa história não iria dar em nada – e pior ainda, ia estragar a noite do casal, que já imaginava eu que estava dirigindo-se a um happy hour com os amigos. Tudo bem, talvez nem estivessem, mas era o que eu faria – ainda mais acompanhada de um belo moço como aquele. Projeção, Freud explica.

Bem, claro que a menina não se acalmou. Diante do comentário extremamente “me fazendo de salame” do moço, alterou o tom de voz: “Se tu sabes que ela é uma idiota, porque você não apagava os recados dela? Desde antes do nosso casamento tem recados dela se atirando pra ti e tu não faz nada!Tu tinha que apagar, sim!”.

Bem, aqui entra um novo elemento na história: a “orkutiqueta”, a etiqueta do orkut. O universo virtual está cada vez mais espelhando o universo real, e comportamentos que antigamente eram exclusivos do mundo real – que inclui telefone, conversas ao vivo – é substituído pelo “encontro” virtual. Quem nunca conversou no programa MSN com mais de um amigo, em uma simulação de teleconferência? Aquilo deixa tonto até o mais experiente em internet, com varias pessoas falando ao mesmo tempo. Lembro, certa vez, que participei de uma conversa dessas, em que um amigo me adicionou por brincadeira. Nada menos que umas trinta pessoas estavam conversando ao mesmo tempo. Alguém se entedia? Claro que não. Pior foi ficar rejeitando os convites de pessoas que ficavam me adicionando depois desse papo, simplesmente querendo “aquela conversinha à toa”. O importante a ser observado é que o contato virtual jamais vai substituir o encontro real.

Ferramentas como orkut, msn e todos outros aparatos tecnológicos vieram complementar e agilizar o contato entre as pessoas. Mas substituir? Francamente, temos aqui um problema. É importante perceber a fronteira entre os dois mundos e não “misturar as estações”.

O orkut é uma excelente ferramenta de contato. Através dele, é possivel encontrar pessoas com quem não se convive mais, através dele podemos saber um pouco mais sobre as pessoas. Quem resiste à uma espiada no orkut do amigo novo ou da nova paquera? Através do índice de comunidades, podemos descobrir traços interessantes das pessoas, gostos, desejos. Embora seja necessário entender que aquilo é um espelho do real, não é o real em si. Muitas comunidades, fotos e recados contidos ali são somente brincadeira, não necessariamente refletem a opinião das pessoas envolvidas.

O problema fica expresso na página de recados pessoal. O orkut facilitou bastante as coisas  aumentando as configurações de privacidade: apenas amigos podem ler o que consta em sua página de recados. Muitas pessoas perdem considerável tempo espiando a página de recados do vizinho – e confesso, até eu faço isso às vezes. Por que? Pela curiosidade inerente a todo ser humano. Maldade, fofoca? Não necessariamente, depende do que você vai entender através do que lê. No caso de relacionamentos, a coisa fica ainda mais delicada: como resistir a uma espiadinha na página de recados do namorado? Os conflitos começam quando se encontram recados que não se espera “oi fulaninho, te adoro muito, saudades”, “adorei a festa ontem” (sendo que ele havia lhe dito que ficaria em casa). Ok, é difícil não ficar irritado, como a menina bonita que protagonizava a cena na famigerada linha T1. Porém, é necessário ter o discernimento de entender que aquilo não necessariamente é o real, apenas um espelho dele. Descobriu uma traição, uma mentira? Uma boa conversa sempre resolve as coisas. Se aconteceu mesmo uma traição e o seu namorado foi idiota demais para deixar uma coisa dessas escancarado na página do orkut, sinto muito, querida, mas acho melhor para os dois a fila andar. Porém, se tu tem a mania de desconfiar até da sua sombra, vai ser dificil nao se irritar com um recado carinhoso, mas que na verdade era apenas era uma mensagem atenciosa de uma ex-colega de colegio do seu namorado. Terapia já!

Apagar ou não apagar os recados? O menino do onibus não apagou nada. E para que? Tem algo a esconder? Ou a namorada acredita que ele não recebe elogios da mulherada às vezes? Claro que sim.

Portanto, o orkut não destrói relacionamentos, quem destrói são as pessoas envolvidas. As ferramentas virtuais agilizam os contatos, mas devem ser usadas com parcimônia. Nunca é demais definir algumas configurações de privacidade (eu mesma apago meus recados uma vez por semana, em média). Mas sem essa de uma etiqueta do orkut! Em vez de quebrar os pratos, desligue o computador e vá ver a pessoa que gosta. Ah, se eu tivesse tempo para um happy hour…